Grupos de ensino enfrentam desafio de se adaptar à crise e à queda do Fies

A crise econômica e a inflexão na concessão do financiamento público pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) embaralham o mercado de ensino privado no país, que passou por mudanças radicais nos últimos dez anos.

Até o final do ano passado, a legislação favorável ao investimento, atraente aos fundos internacionais, levou a um grande número de aquisições e fusões, transformou o setor em estrela do mercado acionário até 2014 e tornou o país sede da maior empresa de educação privada no mundo, a Kroton, com mais de 1 milhão de estudantes.

Mas uma redução no desembolso do governo surpreendeu o setor. O número de novos financiamentos do Fies caiu 57% —o que não alivia o orçamento público, pois os gastos já contratados pelo governo podem levar a uma alta de até 20% nos desembolsos neste ano.

Depois de um período de perplexidade, porém, os fundos educacionais reagiram.

Wagner Rodrigues, diretor de pesquisa da empresa de acompanhamento de mercado TTR, aponta queda no número de fusões e aquisições até o início do mês.

De janeiro até 3 de novembro, foram registrados 24 negócios frente aos 31 registrados no mesmo período de 2014. Já em investimentos de fundos de private equity (que compram participação em empresas de capital fechado) e venture capital (que investem em empresas iniciantes, de alto crescimento), o ano de 2015 manteve o nível de atividade.

O grupo Estácio, segundo maior do país, divulgou no último dia 5 crescimento de 15% no número de alunos nos últimos 12 meses e avanço no lucro líquido de 18%.

“Alguns grupos não sentiram até agora os efeitos da crise, nem na procura, nem na evasão. Todo mundo acha que o que pode acontecer é, no começo do próximo ano, rematrícula um pouco inferior. Tem uma certa incerteza com respeito aos novos entrantes”, diz Christian Gamboa, da Pricewaterhouse Coopers (PwC).

QUEDA NA BOLSA

O consultor Carlos Monteiro, da CM Consultoria, concorda com outros especialistas que os grandes conglomerados têm fôlego financeiro e podem desenvolver produtos diversificados para fazer frente à crise no curto prazo (novos cursos, aquisições, novas formas de financiamento).

Mas diz que grupos com ações negociadas em Bolsa estão sofrendo. A CM Consultoria aponta desvalorização da Kroton (-31,5 %), da Estácio (-30%), do grupo Anima (-61,8%) e do Ser Educacional (-67,3%), desde dezembro de 2014. São R$ 14,5 bilhões que evaporaram da Bolsa, em um ano, na soma desse grupo.

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Ainda assim, os valores de mercado atualizados ainda são robustos: R$ 17,2 bilhões (Kroton, dono da Universidade Anhanguera), R$ 5,2 bilhões (grupo Estácio), R$ 1,2 bilhão (Ser Educacional, forte no Nordeste), R$ 1,1 bilhão (Anima Educação, com a Universidade São Judas Tadeu).

Apesar do recente protagonismo conquistado pelos grandes grupos, eles ainda têm peso relativo. “O ensino superior ainda é muito pulverizado, os 20 maiores grupos representam só 30% dos alunos”, ressalta Ricardo Kim, da XP Investimento.

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São 2.090 instituições superiores privadas e 301 públicas, segundo o último censo, de 2013. Fusões e aquisições continuam, mas podem não alcançar as pequenas, menos atraentes economicamente.

E é nas instituições menores que a realidade é mais dura. Para Monteiro, “as instituições com menos de 2.000 alunos, que têm mais de 30% da receita oriunda do Fies, sentem a crise e vão sentir ainda mais. É a grande maioria”.

FINANCIAMENTO PRIVADO

Uma das alternativas é o financiamento privado dos alunos. A Pravaler, gerida pela Ideal Invest e que tem o Itaú e o Banco Mundial entre seus acionistas, viu a procura crescer seis vezes este ano em relação ao mesmo período de 2014. “Tivemos um aumento generalizado da procura, em todas as estratificações”, afirma Carlos Furlan, diretor-executivo da Ideal Invest.

Os grandes grupos procuraram o Pravaler como alternativa ao Fies, bancando os juros, parcialmente ou integralmente. Segundo Furlan, 55% de todas as vagas no ensino superior privado já podem contar com o financiamento do Pravaler. Uma das mais recentes adesões foi a da Unip (Universidade Paulista).

Ainda assim, o Pravaler ainda exibe números relativos diante das realidade nacional. Atendeu até agora 60 mil alunos, com previsão de desembolso de R$ 1 bilhão. O Fies prevê, apenas para os alunos contratados até 2015, despender R$ 28,45 bilhões.

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ENSINO À DISTÂNCIA

Uma das alternativas de crescimento para os grupos é o ensino à distância (EAD), com ticket (o jargão do mercado para mensalidade) mais baixo. No país, o volume de alunos na modalidade pulou de cerca de 60 mil, em 2004, para 1,15 milhão em 2013, segundo os últimos dados disponíveis, e a grande maioria é no setor privado.

“EAD é o que mais cresce. Todos os grandes grupos já têm operação relevante em ensino à distância, eles enxergam como um aumento de capilaridade, com custo mais baixo”, diz Gamboa.

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Fonte: Folha de S. Paulo